quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Acampando no fim do mundo

Em 1978, alguém falou que ter uma barraca de camping era o suficiente para poder acampar. Meus tios resolveram levar a família em um passeio indígena e claro, eu fui de bico nesse passeio.
Era o feriado de 7 de setembro, o local escolhido era uma praia particular de propriedade de um vendedor da empresa dos meus tios, um judeu meio louco, pintor de quadros fantasmagóricos. Sabíamos (digo, eles sabiam, eu não sabia nada) que era entre Caraguatatuba e Ubatuba.
E levantamos acampamento as 6 horas da manhã, meus tios gostavam de viajar muito cedo, colocamos as 2 barracas nos carros, 2 barracas imensas que era do meu irmão mais velho. Meus tios, minhas tias, meus primos e mais alguns outros primos que foram de estepe como eu.
Saímos e logo de cara vimos o que não devíamos, um transito absurdo, como estávamos no tempo em que siri ainda andava de lado, nem sabíamos direito o porque da demora. Só sei que a viagem que estava planejada para demorar 3 horas demorou 12 horas. Soubemos no fim do percurso que uma ponte havia caído.
Enfim chegamos em algum lugar já em pleno anoitecer, nossa mapa rudimentar indicava que teríamos que atravessar a pé um braço de mar, ceeeerto, um braço de mar! Veja um braço de mar as 10 da manhã é xuxu beleza a maré ajuda a agua esta no tornozelo, mas um braço de mar as 18 horas, ele vira um braço de mar de um halterofilista, de um mister universo!! O tal braço de mar batia no nosso peito, minha tia Clarice que era uma exímia cagona de agua, tinha que carregar uma mala de panelas e mantimentos na cabeça com a agua batendo no seu pescoço, tinha meus primos de menor tamanho que não conseguiam atravessar o braço de mar, e claro tinha as imensas barracas para carregar. Depois de muito tempo e muitas equações conseguimos todos atravessar o braço de mar. Tem um detalhezinho, garoava, aquela garoa chata grudenta que quem conhece a região sabe, quando começa não para.
Próxima tarefa, ir pela picada até a tal praia particular e deserta. Essa tal picada era algo tenebrosa pois subíamos um morro e de um lado era uma mata fechada e do outro lado era um penhasco onde terminava o quebra mar, não era uma picada longa, tinha uns 400 metros, mas era uma aventura a parte, já que o chão estava molhado.
Chegamos a tal praia particular já noite, pouco enxergávamos, víamos uma casinha com luzes fracas que sabíamos ( meus tios sabiam, eu nem fazia ideia) era da mãe do dono. Agora era só montar as barracas.
-Yoda (o verdadeiro nome foi alterado porque meu tio achou um absurdo eu menciona-lo aqui) vamos montar as barracas? disse meu tio Maneco
-Eu não sei montar, você sabe? disse meu tio Yoda
-Eu também, não!
Pronto!! agora começou a nossa novela... já era noite, chovia, estávamos numa praia deserta, distante dos carros, com crianças e ninguém sabia montar as barracas!!!
Restou batermos na porta da casa da mãe de dono (o dono chamava-se Kallmann).
Dona Kallmann abriu uma fresta da porta e olhou pra todo aquele bando de gente com uma cara de assustar lobisomem e perguntou o que acontecia. Minhas tias tentaram explicar o que se passava e apelou para o lado maternal da velha. Dona Kallmann deixou meio que contra feita entrarmos em sua casa, mas antes soltou a seguinte frase: - A faxineira esteve hoje aqui!! seu sotaque era judeu/alemão/caiçara. Ela nos cedeu um quarto de 3x3 para ficarmos todos os 12. Tudo bem, era melhor isso do que ficar no relento!
Mais um pequeno detalhe, não existia energia eletrica, eu me pergunto, por que o senhor Kallmann deixava uma senhorinha morar naquele lugar sem energia eletrica, sem telefone e sem condições de como chegar rapidamente, ela deveria ser muito chata!
Para comermos tínhamos banana, que tínhamos comprado um cacho enorme, pão molhado de chuva e braço de mar e um bolo molhado de leite de coco, que era a coqueluche dos acepipes da época! Esse bolo foi o fator primordial do feriado.
Passamos a noite, de qualquer maneira e logo cedo despertamos para tentar montar a esfinge, digo as barracas, enquanto minhas tias faziam faxina na casa da velha Kallmann.
Olhando de dia e com um tempo melhorzinho a praia era maravilhosa, mas não era lugar para acampar, não teríamos banheiros e só teríamos uma torneira de agua doce.
Meus tios estavam a 2 horas tentando montar a barraca eu e meu primo saímos atrás de alguém que parecesse expert em barracas, vimos uns gringos que falavam nosso idioma e pedimos para eles, em menos de 5 minutos eles montaram as barracas e meus tios ficaram com cara de pirolito. Fácil, quando se sabe!
O nosso acampamento parecia que transcorreria tudo bem, tudo era muito primitivo, o velha olhava a gente da janela e cada vez que olhávamos para ela ela se escondia, medo que pedíssemos socorro novamente.
O tempo não ajudava em nada só garoava, no final da tarde, aquele bolo molhado de coco, começou a dar seus revertérios em todo mundo, menos em mim (milagres acontecem) todo mundo ficou com dor de barriga e se alguém lembrar, não havia banheiro no nosso paraíso!!!
Passamos uma noite deslumbrante! só sei que de manhã deu 'O' 5 minutos na minha tia e levantamos acampamento e fomos todos embora sem desmontar barraca sem nada! Ninguém contestou a ordem!  Restou a meus tios voltarem na semana seguinte pra desmontar as barracas e leva-las!!! Contam eles que  quando voltaram para buscar as barracas, o dia estava lindo e ensolarado.

É por essa experiência que nunca mais na minha vida fui acampar!


A travessia das minhas tias. elas me matam se virem isso!








Montando acampamento

9 comentários:

Anônimo disse...

David, hilário!!!!
bjos, Cá.

Tati disse...

hahaha, olha David, se tem uma coisa que eu não suporto é acampar. Uma vez eu fui e foi tipo o seu programa de indio tb. Nossa choveu todos os dias e estavamos a familia toda, e a barraca que meu pai pegou não cabia ele. ahahaahhahaha sério, o pé dele ficava pra fora ( meu pai tinha1,95 de altura) na chuva. Ou seja foi uó!!! hahahahahahah
lembrei disso.
Beijokas mil
Tati

Moro em um Kinder Ovo disse...

Anos 80, peguei um Guia 4 Rodas, que indicava que Angra tinha camping (em construção) Acreditei que já estava pronto... e não estava!!! Andamos a cidade toda atrás de informações falsas, chovia demais e quase caimos em um buraco. Depois de muito sufoco encontramos um campo de futebol onde já haviam algumas barracas montadas. A nossa barraca era enorme!!! quase tinha que pagar IPTU para ter direito de montar. Fomos a um restaurante em frente para comer e lavar o rosto antes de dormir. Banho?? anotamos na caderneta. Choveu a noite toda!!! Quando acordamos, os sacos de dormir e as sacolas de roupa estavam boiando. E as sacolas de roupa, que eram de lona colorida, mancharam todas as roupas. Final da estória: fomos para um hotel, tivemos que comprar roupa e nunca mais acampei. Ainda tem gente que acampa???

fabers disse...

hoje em dia tenho a mesma opinião que você: acampar é horrível!! já passei tanto frio nessa vida! rs...

mas tadinha da Dona Kallmann...lá sozinha e isolada! por que será???

beijos no coração!

Heloisa Pinhatelli da Silva disse...

Braço de mar de um halterofilista, de um mister universo - sensacional.
Bom, eu sempre acampo, mas a medida que fico mais velha, mais intolerante fico à falta de conforto.
O que me impressiona é que vc topava tudo hein: férias de inverno, acampar no meio do nada! Que garoto mais disposto!!!
PS: se eu fosse sua tia, nem esperaria montar barraca. Quando amanhecesse já estaria arrastando um bico até o chão até conseguir ir embora.

Wans disse...

Acampar não rola pra mim. Uma vez, fiquei 3 dias sem ir ao banheiro. É muita paranóia para uma pessoa só

DO disse...

Ah não,to fora destas coisas,rsss
É muita dor de cabeça pra pouco privilégio,rss
Mas que vcs foramn corajosos,isto foram,rss
Abração!

Aline Camargo disse...

ATÉ HOJE, quando a penca toda da família da minha avó se reúne (coisa básica, umas 150 pessoas)em ocasiões como funerais e bodas, o pessoal das antigas fica lembrando dos acampamentos que fazia. Eles tinham até um hino, o da 'família mandruvá'. Nem preciso contar por que, né?

Graça a Deus que nessa época eu ainda nem fazia morada nos culhões de Papito.

Ótima história, como sempre!!!

Kim disse...

Nossa!!

Pai uma pergunta que eu acho que ninguém fez até agora:
Como, COMO, meu Deus do céu, a Dona Kallman (um nome magnífico para um livro da Agatha Christie)tinha uma empregada!?!?!?!?


Adoro o seu jeito de escrever, mas acho que você poderia abusar mais das descrições, como do lugar, da trilha, do mar, da praia, etc...


Ou será que a memória já vai longe?


=)